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segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Não Contem com o Fim do Livro


13/03/2010

Andrea Barbiroli/AE

Umberto Eco assina novo trabalho em parceria com o roteirista francês Jean-Claude Carrière


‘Eletrônicos duram 10 anos; livros, 5 séculos’, diz Umberto Eco
Ensaísta e escritor italiano fala em entrevista exclusiva de seu novo trabalho, ‘Não Contem com o Fim do Livro’

MILÃO – O bom humor parece ser a principal característica do semiólogo, ensaísta e escritor italiano Umberto Eco. Se não, é a mais evidente. Ao pasmado visitante, boquiaberto diante de sua coleção de 30 mil volumes guardados em seu escritório/residência em Milão, ele tem duas respostas prontas quando é indagado se leu toda aquela vastidão de papel. “Não. Esses livros são apenas os que devo ler na semana que vem. Os que já li estão na universidade” – é a sua preferida. “Não li nenhum”, começa a segunda. “Se não, por que os guardaria?”

Na verdade, a coleção é maior, beira os 50 mil volumes, pois os demais estão em outra casa, no interior da Itália. E é justamente tal paixão pela obra em papel que convenceu Eco a aceitar o convite de um colega francês, Jean-Phillippe de Tonac, para, ao lado de outro incorrigível bibliófilo, o escritor e roteirista Jean-Claude Carrière, discutir a perenidade do livro tradicional. Foram esses encontros (“muito informais, à beira da piscina e regados com bons uísques”, informa Umberto Eco) que resultaram em Não Contem Com o Fim do Livro, que a editora Record lança na segunda quinzena de abril.

A conclusão é óbvia: tal qual a roda, o livro é uma invenção consolidada, a ponto de as revoluções tecnológicas, anunciadas ou temidas, não terem como detê-lo. Qualquer dúvida é sanada ao se visitar o recanto milanês de Eco, como fez o Estado na última quarta-feira. Localizado diante do Castelo Sforzesco, o apartamento – naquele dia soprado por temperaturas baixíssimas, a neve pesada insistindo em embranquecer a formidável paisagem que se avista de sua sacada – encontra-se em um andar onde antes fora um pequeno hotel. “Se eram pouco funcionais para os hóspedes, os longos corredores são ótimos para mim pois estendo aí minhas estantes”, comenta o escritor, com indisfarçável prazer, ao apontar uma linha reta de prateleiras repletas que não parecem ter fim. Os antigos quartos? Transformaram-se em escritórios, dormitórios, sala de jantar, etc. O mais desejado, no entanto, é fechado a chave, climatizado e com uma janela que veda a luz solar: lá estão as raridades, obras produzidas há séculos, verdadeiros tesouros. Isso mesmo: tesouros de papel.

Conhecido tanto pela obra acadêmica (é professor aposentado de semiótica, mas ainda permanece na ativa na Faculdade de Bolonha) como pelos romances (O Nome da Rosa, publicado em 1980, tornou-se um best-seller mundial), Eco é um colecionador nato; além de livros, gosta também de selos, cartões-postais, rolhas de champanhe. Na sala de seu apartamento, estantes de vidro expõem tantos os livros raros – que, no momento, lideram sua preferência – como conchas, pedras, pedaços de madeira. As paredes expõem quadros que Eco arrematou nas visitas que fez a vários países ou que simplesmente ganhou de amigos – caso de Mário Schenberg (1914-1990), físico, político e crítico de arte brasileiro, de quem o escritor guarda as melhores recordações.

Aos 78 anos, Eco – que tem relançado no País Arte e Beleza na Estética Medieval (Record, 368 págs., R$ 47,90, tradução de Mario Sabino) – exibe uma impressionante vitalidade. Diverte-se com todo tipo de cinema (ao lado de seu aparelho de DVD repousa uma cópia da animação Ratatouille), mantém contato com seus alunos em Bolonha, escreve artigos para jornais e revistas e aceita convites para organizar exposições, como a que o transformou, no ano passado, em curador, no Museu do Louvre, em Paris. Lá, o autor teve o privilégio de passear sozinho pelos corredores do antigo palácio real francês nos dias em que o museu está fechado. E, como um moleque levado, aproveitou para alisar o bumbum da Vênus de Milo. Foi com esse mesmo espírito bem-humorado que Eco – envergando um elegante terno azul-marinho, que uma revolta gravata da mesma cor tratava de desalinhar; o rosto sem a característica barba grisalha (raspada religiosamente a cada 20 anos e, da última vez, em 2009, também porque o resistente bigode preto o fazia parecer Gengis Khan nas fotos) – conversou com a reportagem do Sabático.

O livro não está condenado, como apregoam os adoradores das novas tecnologias?

O desaparecimento do livro é uma obsessão de jornalistas, que me perguntam isso há 15 anos. Mesmo eu tendo escrito um artigo sobre o tema, continua o questionamento. O livro, para mim, é como uma colher, um machado, uma tesoura, esse tipo de objeto que, uma vez inventado, não muda jamais. Continua o mesmo e é difícil de ser substituído. O livro ainda é o meio mais fácil de transportar informação. Os eletrônicos chegaram, mas percebemos que sua vida útil não passa de dez anos. Afinal, ciência significa fazer novas experiências. Assim, quem poderia afirmar, anos atrás, que não teríamos hoje computadores capazes de ler os antigos disquetes? E que, ao contrário, temos livros que sobrevivem há mais de cinco séculos? Conversei recentemente com o diretor da Biblioteca Nacional de Paris, que me disse ter escaneado praticamente todo o seu acervo, mas manteve o original em papel, como medida de segurança.

Qual a diferença entre o conteúdo disponível na internet e o de uma enorme biblioteca?

A diferença básica é que uma biblioteca é como a memória humana, cuja função não é apenas a de conservar, mas também a de filtrar – muito embora Jorge Luis Borges, em seu livro Ficções, tenha criado um personagem, Funes, cuja capacidade de memória era infinita. Já a internet é como esse personagem do escritor argentino, incapaz de selecionar o que interessa – é possível encontrar lá tanto a Bíblia como Mein Kampf, de Hitler. Esse é o problema básico da internet: depende da capacidade de quem a consulta. Sou capaz de distinguir os sites confiáveis de filosofia, mas não os de física. Imagine então um estudante fazendo uma pesquisa sobre a 2.ª Guerra Mundial: será ele capaz de escolher o site correto? É trágico, um problema para o futuro, pois não existe ainda uma ciência para resolver isso. Depende apenas da vivência pessoal. Esse será o problema crucial da educação nos próximos anos.

Não é possível prever o futuro da internet?

Não para mim. Quando comecei a usá-la, nos anos 1980, eu era obrigado a colocar disquetes, rodar programas. Hoje, basta apertar um botão. Eu não imaginava isso naquela época. Talvez, no futuro, o homem não precise escrever no computador, apenas falar e seu comando de voz será reconhecido. Ou seja, trocará o teclado pela voz. Mas realmente não sei.

Como a crescente velocidade de processar dados de um computador poderá influenciar a forma como absorvemos informação?

O cérebro humano é adaptável às necessidades. Eu me sinto bem em um carro em alta velocidade, mas meu avô ficava apavorado. Já meu neto consegue informações com mais facilidade no computador do que eu. Não podemos prever até que ponto nosso cérebro terá capacidade para entender e absorver novas informações. Até porque uma evolução física também é necessária. Atualmente, poucos conseguem viajar longas distâncias – de Paris a Nova York, por exemplo – sem sentir o desconforto do jet lag. Mas quem sabe meu neto não poderá fazer esse trajeto no futuro em meia hora e se sentir bem?

É possível existir contracultura na internet?

Sim, com certeza, e ela pode se manifestar tanto de forma revolucionária como conservadora. Veja o que acontece na China, onde a internet é um meio pelo qual é possível se manifestar e reagir contra a censura política. Enquanto aqui as pessoas gastam horas batendo papo, na China é a única forma de se manter contato com o restante do mundo.

Em um determinado trecho de ‘Não Contem Com o Fim do Livro’, o senhor e Jean-Claude Carrière discutem a função e preservação da memória – que, como se fosse um músculo, precisa ser exercitada para não atrofiar.

De fato, é importantíssimo esse tipo de exercício, pois estamos perdendo a memória histórica. Minha geração sabia tudo sobre o passado. Eu posso detalhar sobre o que se passava na Itália 20 anos antes do meu nascimento. Se você perguntar hoje para um aluno, ele certamente não saberá nada sobre como era o país duas décadas antes de seu nascimento, pois basta dar um clique no computador para obter essa informação. Lembro que, na escola, eu era obrigado a decorar dez versos por dia. Naquele tempo, eu achava uma inutilidade, mas hoje reconheço sua importância. A cultura alfabética cedeu espaço para as fontes visuais, para os computadores que exigem leitura em alta velocidade. Assim, ao mesmo tempo que aprimora uma habilidade, a evolução põe em risco outra, como a memória. Lembro-me de uma maravilhosa história de ficção científica escrita por Isaac Asimov, nos anos 1950. É sobre uma civilização do futuro em que as máquinas fazem tudo, inclusive as mais simples contas de multiplicar. De repente, o mundo entra em guerra, acontece um tremendo blecaute e nenhuma máquina funciona mais. Instala-se o caos até que se descobre um homem do Tennessee que ainda sabe fazer contas de cabeça. Mas, em vez de representar uma salvação, ele se torna uma arma poderosa e é disputado por todos os governos – até ser capturado pelo Pentágono por causa do perigo que representa (risos). Não é maravilhoso?

No livro, o senhor e Carrière comentam sobre como a falta de leitura de alguns líderes influenciou suas errôneas decisões.

Sim, escrevi muito sobre informação cultural, algo que vem marcando a atual cultura americana que parece questionar a validade de se conhecer o passado. Veja um exemplo: se você ler a história sobre as guerras da Rússia contra o Afeganistão no século 19, vai descobrir que já era difícil combater uma civilização que conhece todos os segredos de se esconder nas montanhas. Bem, o presidente George Bush, o pai, provavelmente não leu nenhuma obra dessa natureza antes de iniciar a guerra nos anos 1990. Da mesma forma que Hitler devia desconhecer os relatos de Napoleão sobre a impossibilidade de se viajar para Moscou por terra, vindo da Europa Ocidental, antes da chegada do inverno. Por outro lado, o também presidente americano Roosevelt, durante a 2.ª Guerra, encomendou um detalhado estudo sobre o comportamento dos japoneses para Ruth Benedict, que escreveu um brilhante livro de antropologia cultural, O Crisântemo e a Espada. De uma certa forma, esse livro ajudou os americanos a evitar erros imperdoáveis de conduta com os japoneses, antes e depois da guerra. Conhecer o passado é importante para traçar o futuro.

Diversos historiadores apontam os ataques terroristas contra os americanos em 11 de setembro de 2001 como definidores de um novo curso para a humanidade. O senhor pensa da mesma forma?

Foi algo realmente modificador. Na primeira guerra americana contra o Iraque, sob o governo de Bush pai, havia um confronto direto: a imprensa estava lá e presenciava os combates, as perdas humanas, as conquistas de território. Depois, em setembro de 2001, se percebeu que a guerra perdera a essência de confronto humano direto – o inimigo transformara-se no terrorismo, que podia se personificar em uma nação ou mesmo nos vizinhos do apartamento ao lado. Deixou de ser uma guerra travada por soldados e passou para as mãos dos agentes secretos. Ao mesmo tempo, a guerra globalizou-se; todos podem acompanhá-la pela televisão, pela internet. Há discussões generalizadas sobre o assunto.

Falando agora sobre sua biblioteca, é verdade que ela conta com 50 mil volumes?

Sim, de uma forma geral. Nesse apartamento em Milão, estão apenas 30 mil – o restante está no interior da Itália, onde tenho outra casa. Mas sempre me desfaço de algumas centenas, pois, como disse antes, é preciso fazer uma filtragem.

Por que o senhor impediu sua secretária de catalogá-los?

Porque a forma como você organiza seus livros depende da sua necessidade atual. Tenho um amigo que mantém os seus em ordem alfabética de autores, o que é absolutamente estúpido, pois a obra de um historiador francês vai estar em uma estante e a de outro em um lugar diferente. Eu tenho aqui literatura contemporânea separada por ordem alfabética de países. Já a não contemporânea está dividida por séculos e pelo tipo de arte. Mas, às vezes, um determinado livro pode tanto ser considerado por mim como filosófico ou de estética da arte; depende do motivo da minha pesquisa. Assim, reorganizo minha biblioteca segundo meus critérios e somente eu, e não uma secretária, pode fazer isso. Claro que, com um acervo desse tamanho, não é fácil saber onde está cada livro. Meu método facilita, eu tenho boa memória, mas, se algum idiota da família retira alguma obra de um lugar e a coloca em outro, esse livro está perdido para sempre. É melhor comprar outro exemplar (risos).

Um estudioso que também é seu amigo, Marshall Blonsky, escreveu certa vez que existe de um lado Umberto, o famoso romancista, e de outro Eco, professor de semiótica.

E ambos sou eu (risos). Quando escrevo romances, procuro não pensar em minhas pesquisas acadêmicas – por isso, tiro férias. Mesmo assim, leitores e críticos traçam diversas conexões, o que não discuto. Lembro de que, quando escrevia O Pêndulo de Foucault, fiz diversas pesquisas sobre ciência oculta até que, em um determinado momento, elas atingiram tal envergadura que temi uma teorização exagerada no romance. Então, transformei todo o material em um curso sobre ciência oculta, o que foi muito bem-feito.

Por falar em ‘O Pêndulo de Foucault’, comenta-se que o senhor antecipou em muito tempo O Código de Da Vinci, de Dan Brown.

Quem leu meu livro sabe que é verdade. Mas, enquanto são os meus personagens que levam a sério esse ocultismo barato, Dan Brown é quem leva isso a sério e tenta convencer os leitores de que realmente é um assunto a ser considerado. Ou seja, fez uma bela maquiagem. Fomos apresentados neste ano em uma première do Teatro Scala e ele assim se apresentou: “O senhor não me admira, mas eu gosto de seus livros.” Respondi: Não é que eu não goste de você – afinal, eu criei você (risos).

Em seu mais conhecido romance, O Nome da Rosa, há um momento em que se discute se Jesus chegou a sorrir. É possível pensar em senso de humor quando se trata de Deus?

De acordo com Baudelaire, é o Diabo quem tem mais senso de humor (risos). E, se Deus realmente é bem-humorado, é possível entender por que certos homens poderosos agem de determinada maneira. E se ainda a vida é como uma história contada por um idiota, cheia de som e fúria, como Shakespeare apregoa em Macbeth, é preciso ainda mais senso de humor para entender a trajetória da humanidade.

Como foi a exposição no Museu do Louvre, em Paris, da qual o senhor foi curador, no ano passado?

Há quatro anos, o museu reserva um mês para um convidado (Toni Morrison foi escolhida certa vez) organizar o que bem entender. Então, me convidaram e eu respondi que queria fazer algo sobre listas. “Por quê?”, perguntaram. Ora, sempre usei muitas listas em meus romances – até pensei em escrever um ensaio sobre esse hábito. Bem, quando se fala em listas na cultura, normalmente se pensa em literatura. Mas, como se trata de um museu, decidi elaborar uma lista visual e musical, essa sugerida pela direção do Louvre. Assim, tive o privilégio (que não foi oferecido a Dan Brown) de visitar o museu vazio, às terças-feiras, quando está fechado. E pude tocar a bunda da Vênus de Milo (risos) e admirar a Mona Lisa a apenas 20 centímetros de distância.

O senhor esteve duas vezes no Brasil, em 1966 e 1979. Que recordações guarda dessas visitas?

Muitas. A primeira, em São Paulo, onde dei algumas aulas na Faculdade de Arquitetura (da USP), que originaram o livro A Estrutura Ausente. Já na segunda fui acompanhado da família e viajamos de Manaus a Curitiba. Foi maravilhoso. Lembro-me de meu editor na época pedindo para eu ficar para o carnaval e assistir ao desfile das escolas de samba de camarote, o que não pude atender. E também me recordo de imagens fortes, como a da moça que cai em transe em um terreiro (para o qual fui levado por Mario Schenberg) e que reproduzo em O Pêndulo de Foucault.

» Ubiratan Brasil, enviado especial in Caderno 2 – Estadão

Projeto do Google Books gera polêmica


Juliana Krapp, Jornal do Brasil

RIO -

Quem abre o Google Books, página virtual dedicada aos livros do buscador mais usado no mundo, depara-se com a nota: “O Google selou um acordo revolucionário com autores e editoras”. A frase solta está interligada a outra página, dedicada a explicar “o futuro da pesquisa de livros do Google”. Na semana passada, porém, o jornal New York Times anunciou que esse futuro anunciado está em xeque. O Departamento de Justiça americano, de olho na possível criação de um monopólio livreiro, abriu um inquérito para investigar o tal “acordo revolucionário” – acerto que a empresa está fazendo com editoras e autores para a reprodução de livros ou trechos de livros no Google Books. As investigações teriam partido de protestos de representantes de organizações como a Internet Archive (uma biblioteca virtual sem fins lucrativos que desde 1996 disponibiliza gratuitamente 150 milhões de páginas web) e a Consumer Watchdog (uma das principais organizações de defesa dos consumidores nos Estados Unidos), que se opõem ao acordo.

Quase ao mesmo tempo, o Google divulgava os detalhes de sua mais recente novidade no mundo tecnológico: o registro da patente 750897, que diz respeito a um poderoso scanner. Lançando mão de técnicas como raios infravermelhos, o novo equipamento escaneia textos com velocidade e qualidade muito maiores do que os convencionais, e seria um importante aliado para o projeto da empresa de criar o maior acervo de livros digitais do planeta – para o qual o “acordo revolucionário” é tão importante.


O acordo tem causado polêmica entre editoras e escritores de diferentes países. Além das manifestações de repúdio da Internet Archive e da Consumer Watchdog, a Federação de Editores da Espanha manifestou, recentemente, sua discordância diante da proposta. Na Europa e na América Latina, escritores têm apoiado ou criticado, em seus blogs, a iniciativa do Google. No Peru, o escritor Iván Thays, finalista do Prêmio Herralde de 2008, incitou em seu blog autores do mundo todo a recusarem o acordo com o buscador – isso apesar de ser ele próprio um defensor ferrenho do formato digital de livros.


– Não se pode saber o que o Google fará com esses direitos, a quem os venderá e que limites têm esse acordo ante a aparição de novas tecnologias – explicou, ao Ideias. – É outorgar um poder às cegas, e eu não estou de acordo com isso.

Período de estudos

Enquanto o debate esquenta em outros países, no Brasil autores e editores tampouco sabem ao certo do que se trata. Por enquanto, o único núcleo dedicado a debater o confuso texto do acordo é o Sindicato Nacional dos Editores de Livros (Snel), que concentrou advogados na árdua missão de analisar as implicações legais da aceitação ou não dos termos propostos. Ainda assim, eles não chegaram a uma conclusão.


– Por enquanto, está tudo em aberto. Estamos estudando e discutindo com calma – justifica a editora Mariana Zahar, uma das envolvidas no debate dentro do sindicato.


O acordo surgiu quando a Authors Guild (espécie de associação de autores americanos), a Association of American Publishers (Associação de Editoras Americanas) e um grupo de escritores e editoras moveram uma ação coletiva contra o Google Books, há três anos. Em 2005, a empresa começara a digitalização de livros em várias bibliotecas americanas, compondo o material disponível para seu acervo on-line. O processo contra o Google alegava que o procedimento viola os direitos dos autores. A empresa, no entanto, nega as acusações, afirmando que só libera o acesso integral às obras em domínio público.


– No caso de textos protegidos por direitos autorais, o Google Books não exibe seu conteúdo integral (alguns trechos do livro são exibidos de acordo com uma busca feita por palavra-chave, por meio de um sistema de indexação), e isso está permitido pelas leis americanas – defende Rodrigo Velloso, Diretor de Desenvolvimento de Negócios do Google Brasil. – Além disso, o Google não lucrava com essas exibições.


Pelos termos do acordo – que ainda não foi aprovado (a audiência pública final será em outubro, em Nova York) – o Google irá pagar os direitos que devia a autores e editores. Mas, para isso, ambas as classes devem reivindicar o pagamento, o que pode ser feito por um formulário disponível no site de administração do acordo (www.googlebooksettlement.com). Os valores são fixos: o Google pagará US$ 60 pelo que chama de “trabalho principal”, US$ 15 por “inserção inteira” e US$ 5 por “inserção parcial”.


Os detentores de direitos autorais também podem optar por não aceitar a proposta do Google – mas, para isso, devem enviar à empresa, até 4 de setembro, um formulário onde indicam essa decisão. Reside aí um dos pontos mais polêmicos do acordo.


– A postura do Google é inversa à de qualquer editor decente. Ela nos diz: “nós já pegamos, sem sua permissão, os seus direitos; se quer evitá-lo, envie-nos uma carta” – protesta Thays, que já enviou a sua. – Não posso esperar nenhum acordo justo com uma empresa que atua dessa maneira desde o princípio.


Faz parte do acordo, também, a criação da Book Rights Registry, uma entidade que começará a funcionar com o financiamento de US$ 35 milhões do Google e que será gerida por associações de autores e de editores americanos (os mesmos que começaram a ação coletiva).


– É uma entidade independente, que vai centralizar os cadastros de direitos de livros e servir de intermediária entre os detentores dos direitos e os usos do Google – explica Velloso, que acrescenta: – Se no futuro uma outra empresa quiser fazer um serviço parecido ao do Google, também será intermediada pela Book Rights Registry.


A questão é: quando haverá uma empresa capaz de concorrer com o Google na digitalização de tantos livros?

– O tipo de movimento que está acontecendo com a digitalização de livros nos Estados Unidos é bom, mas desde que haja concorrência. E hoje, nenhuma empresa, exceto o Google, pode oferecer esse serviço. Sendo assim, não há concorrência – diz o advogado Ronaldo Lemos, diretor da Creative Commons Brasil (projeto sem fins lucrativos que disponibiliza licenças flexíveis para obras intelectuais).


Lucia Riff, uma das mais atuantes agentes literárias no país, também dá o seu parecer:

– É importante que haja meios de divulgação de livros como esse. Por outro lado, o acordo dá um poder inacreditável ao Google.


Esse poder ao qual se refere Lucia vem do fato de que, ao aderir ao acordo, os detentores de direitos autorais estão permitindo que o Google digitalize suas obras – mesmo que, pelo acordo, o tipo de visualização disponível no buscador seja definido de antemão.

– Além disso, o acordo só se aplica aos livros que não estão comercialmente disponíveis, ou seja: os esgotados – assegura Velloso.


O que não acalma muito as preocupações da turma do contra, uma vez que, segundo dados do Online Computer Library Center (OCLC), citados pelo próprio Velloso, dos 55 milhões de títulos existentes no mundo hoje, 10% representam o catálogo ativo das editoras, 15% estão em domínio público e 75% – ou 40 milhões – são livros não comercializados, que ainda não estão em domínio público.


É aí que entra uma outra questão crucial para a polêmica do acordo: os chamados livros “órfãos”, ou seja, que não têm direitos autorais definidos. Alguns grupos acusam o Google de aproveitar o acordo para obter o passe livre para a venda desses títulos. Velloso, no entanto, afirma que a receita obtida com a visualização dessas obras é que irá garantir a sobrevivência, no futuro, da Book Rights Registry.


Por enquanto, o que está previsto no acordo, segundo o diretor, é que o Google vai disponibilizar aos usuários a visualização de 20% das páginas de uma obra – sem permitir cópias ou impressões – e comercializar o acesso on-line aos livros completos. A receita obtida com essa venda será dividida da seguinte forma: 63% para os detentores dos direitos autorais e 37% para o Google. No caso de títulos órfãos, o valor equivalente aos direitos autorais seria repassado ao Book Rights Registry. Além disso, o Google também poderá “vender” sua base de dados para instituições como universidades e centros de pesquisa.


Barreiras geográficas

Outro fato bastante polêmico é que, caso seja aprovado o acordo, a enorme biblioteca virtual criada pelo Google ficará disponível apenas para quem estiver em território americano – ou melhor, para quem tiver no computador um IP americano – uma vez que as leis de direitos autorais variam de país a país.


– Esse acordo, infelizmente, acaba reforçando as barreiras geográficas da internet, o que é uma tendência cada vez mais forte – lamenta Lemos.


Mas, se no quesito acesso as barreiras geográficas são ressaltadas, no momento de organizar o monumental acervo que se tornará o Google Books, as fronteiras são tênues. Eis aí um outro ponto controverso no acordo: como ele parte da digitalização de livros disponíveis em bibliotecas americanas, e estas reúnem acervos de diferentes nacionalidades, muitas obras brasileiras, por exemplo, estão à mercê do acordo. Embora os detentores de seus direitos raramente estejam atentos a isso.


Mariana Zahar, quando baixou a planilha com a descrição dos livros de sua editora que se enquadrariam no acordo, ficou pasma. Em vez dos cerca de 50 títulos que imaginava disponíveis, havia 750. Agora, ela precisa decifrar, junto com os advogados acionados pelo sindicato, as mais de 400 páginas que descrevem o acordo, e discutir com os seus colegas o que é mais saudável para o mercado: acatar ou não as regras do jogo, que está, atualmente, repleto de pontos obscuros.


– O caso de livros de literatura estrangeira que já estiveram no nosso catálogo, mas estão agora esgotados, por exemplo, nos traz um problema. Porque os direitos da obra em si foram revertidos para a fonte original, mas os direitos para tradução para o português é nossa. O que fazer? – pergunta.


Em meio às dúvidas de Mariana, se sobressai o desconhecimento de editores e autores brasileiros, que ainda sequer começaram a moldar uma opinião sobre o assunto.


– Não estou totalmente a par – explicou elegantemente Bernardo Carvalho.


– Não estou acompanhando a discussão – disse Patricia Melo.


– Estou totalmente por fora desse assunto. Sou um péssimo internauta – assegurou Milton Hatoum.


Já Daniel Galera é um dos poucos a ter uma opinião mais definida:

– Apóio a digitalização de livros e acho que as empresas que investirem nisso devem, sim, ter direito a uma parcela de copyrights. Mas não preciso liberar um livro meu para o Google Books porque posso eu mesmo colocar o texto na rede e distribui-lo da forma que quiser.